07
Jan
2020

Meus concidadãos, depois de um ciclo fechado de uma maratona de eleições: as legislativas em Março e presidenciais em Dezembro, encerra o longo percurso político e de jogo de interesses desmedidos dos partidos e candidatos a eleger ao mais alto cargo solene da Guiné-Bissau.

Se recuarmos um pouco, nota-se uma campanha eleitoral de legislativas renhidas para o povo escolher os seus representantes para a Assembleia Nacional Popular, um outro órgão da Soberania do país. No início, previa-se as possíveis coligações entre o Movimento para a Alternância Democrática (MADEM – G 15) e o Partido da Renovação Social (PRS) e do outro lado, antevia um PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) isolado, que almejava conseguir uma vitória galopante para se manter no poder depois de muitos ensaios sociopolíticos (perder governo e reconquistá-lo depois de várias negociações em muitas tentativas de encontrar a paz social e governativa, através da Comunidade Económica dos Estados da Africa Ocidental – CEDAO) e reerguer ao poder com o intuito de afastar por definitivo os adversários políticos na governação, que ao longo dos discursos percebia esse cenário de retaliação tanto para o bloco PRS/MADEM-G15, quanto do lado dos libertadores.

Algo curioso aconteceu, a eleição de cinco (5) deputados-ouro da Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau – APU-PDGB, que tanto o bloco PRS/MADEM-G15 quanto o PAIGC não contavam, surpreendeu de que maneira, ou seja, inverteu cenário político. Digo por outras palavras, os libertadores, através do seu líder-estratégico, apercebeu do perigo que o partido poderia correr se não for aliar-se à APU-PDGB, e do outro lado, talvez por descuido ou confiança de que unindo o tal bloco formaria a maioria para formar o governo. Era um jogo de tudo ou nada! Caros conterrâneos, não era preciso essa luta. Porque na política ninguém ganha tudo e muito menos tudo perde. Com isso, mostrava claramente qual foi a intenção dos mesmos, visto que essa luta não foi com o propósito de desenvolver e tirar o país no índice de desenvolvimento humano precário. Era alguma coisa…

O filme ainda não acabou aqui, porque, tendo o bloco PRS/MADEM-G15, possível apoio do Presidente da República cessante, para bloquear qualquer maioria formada pelo PAIGC e impedir por definitivo, ou então, acabar politicamente com o Eng.º Domingos Simões Pereira; mas a APU-PDGB recusou esta morte lenta do engenheiro, porque Nuno Gomes Nabiam não queria ficar como o único ‘engenho’ no cenário conturbado político guineense. Talvez por não querer ver o companheiro da profissão a desaparecer de forma prematura depois de um tremendo esforço para conquistar a simpatia dos eleitorados guineenses e ter levado o partido a uma vitória tanto nas eleições ditas gerais de 2014, e ver tudo a perder a favor dos que não tiveram a maioria governarem a custo do nada. E ver, outra vez, o partido adiantar-se ao marcador nas eleições legislativas de março de 2019, apesar de precisar de cinco deputados-ouro da APU-PDGB para governar. Tudo isso parecia um filme, que só existe na política deste país. O acordo de incidência parlamentar para garantir estabilidade no país após as legislativas parece durar pouco menos de três meses para se desfazerem. Há quem diga que o cordo está de pé. As nossas humildes perguntas são essas: Será que os que ainda estão a puxar a corda para o lado do PAIGC têm legitimidade apuana para se manter o tal acordo afirmado? Ou não vamos voltar a história dos libertadores de expulsar, porque não estão a respeitar a disciplina partidária? Ou o próprio presidente é que vai ter que abandonar o partido para se militar no PRS?

Essas perguntas podem ser respondidas por qualquer leitor deste artigo, mas a nós não nos compete, apenas limitamos a expor os factos ou a narrar os cenários sociopolíticos vigentes no país.

Depois deste primeiro episódio do filme das eleições legislativas e consequente formação do governo liderado pelo cidadão Aristides Gomes, pouco depois, dois jogadores da mesma equipa orientada por Gomes apanharam cartões vermelhos diretos, trata-se de dois Secretários de Estado (do Ensino Superior e Investigação Científica e dos Transportes e Comunicações), na sequência de estes terem marcado autogolo. Na gíria do futebol significa marcar na sua própria baliza. Isto é, terem participado num governo nomeado e empossado pelo Presidente da República cessante, José Mário Vaz. Como o governo liderado pelo Dr. Faustino Fudut Imbali não teve gabinetes, obrigou os dois jovens apuanos a ficarem sem equipa. Parece que voltamos a ter um outro fio a desenrolar.

Tendo aberta a campanha eleitoral, a concorrência a mais alta figura do país, uma das eleições presidenciais mais concorridas, desfilaram logo 12 candidatos para ocupar o Palácio cor-de-rosa, contanto como é óbvio com a recandidatura do presidente cessante. Desta vez, tendo como um forte opositor o seu antigo aliado do partido e consequente presidente do partido, que por divergências pessoais levou a negá-lo a continuar a chefiar o governo e posteriormente ver o seu nome ser recusado por este em ser nomeado para chefiar o governo, resultante de últimos resultados eleitorais de março. Como última alternativa deste e do seu partido ter que indicar de novo o nome do Dr. Aristides Gomes ao cargo de chefe do governo.

Os resultados eleitorais da primeira volta afastaram por definitivo o presidente cessante da concorrência. Parece é aí que DSP, como o chamam, ganhou a proporção de se eleger presidente, tendo afastado o seu grande opositor e ‘inimigo’ número um na política. Outra vez, voltamos ao início do filme. O presidente cessante, apesar de algumas divergências com o seu antigo primeiro-ministro, acabou por identificar-se com esse, em última alternância, apoiá-lo incondicionalmente para não permitir, em circunstância nenhuma, que o ‘vizinho’ arrebatasse a «turpessa di renança», que logo entregou, num ato simbólico, a Umaro Sissoco Embaló aquando da cerimónia de declaração de apoio a este. Antes, outros candidatos derrotados já haviam manifestado e assinado apoio ao General de Povo, como o denominaram ao longo da campanha eleitoral. Trata-se de Carlos Domingos Gomes Júnior (CADOGO FIDJU) e Eng.º Nuno Gomes Nabiam, respetivamente.

Com estas ondas de apoio, o círculo ficava cada vez mais apertado ao candidato apoiado pelo PAIGC, pois o circuito eleitor já se identificava com os seus candidatos, que segundo eles, eram as suas bases eleitorais. Sem dúvidas isso confirmou-se. Pelo menos quem viajava para o interior do país, como no meu caso, percebia que a circunstância não favorecia ao candidato suportado pelo PAIGC.

A dupla Jomav/Domingos Simões Pereira nas eleições gerais de 2014, os dois morreram na praia. Podia ser a lição de moral para todos de que não deve e não se pode fazer a política com a intenção de eliminar politicamente o ‘adversário’. Usei aqui o termo adversário, porque é o que se adequa ao contexto de partilha e de complementaridade, tanto em termos religiosos como humanitários.

Até aqui, resta-nos renovar esperanças no novo presidente eleito. Mas podemos ficar inquietos, primeiro pelo sinal de ondas de apoio que se sente por quase todos os partidos com e sem assento parlamentar, e/ou candidatos derrotados, e segundo; será que esses apoios não teriam outros interesses obscuros intencionados? Se estamos a ser pessimistas, pedimos as nossas sinceras desculpas, mas uma certeza temos. Este governo liderado por Aristides Gomes parece não ter pernas para andar. Era…

A campanha de intriga e de deslealdade fomentada durante esta campanha eleitoral das presidenciais em que se afirma que o fulano, beltrano ou sicrano não gosta de muçulmanos ou de cristãos, quando será cerrada essa ferida? Não há único candidato que escapou esta questão, tanto para se defender como para se justificar. Foi uma campanha disputada até ao limite, mas foi uma das campanhas eleitorais mais pobres desde o início da democracia. Que moral ensinaram as crianças ou adolescentes com as vossas mensagens emitidas nas rádios e TV? Ou porque queriam o poder a todo o custo? Cuidado com tudo o que quer a todo preço, porque tem as suas consequências. Sejamos humanos, dignos dos nossos valores e princípios que nos orientam.

 

Lisboa, 02 de janeiro de 2020

Professor Luís Blak

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